quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A VELHICE

Se meu andar é hesitante e minhas mãos trêmulas, ampare-me...

Se minha audição não é boa e tenho de me esforçar para ouvir o que você está dizendo, procure entender-me...

Se minha visão é imperfeita e o meu entendimento é escasso, ajude-me com paciência...

Se minhas mãos tremem e derrubam comida na mesa ou no chão, por favor não se irrite, tentei fazer o melhor que pude...

Se você me encontrar na rua, não faça de conta que não me viu, pare para conversar comigo, sinto-me tão só...

Se você na sua sensibilidade me vê triste e só, simplesmente partilhe um sorriso e seja solidário...

Se lhe contei pela terceira vez a mesma "história" num só dia, não me repreenda, simplesmente ouça-me...

Se me comporto como criança, cerque-me de carinho...
Se estou com medo da morte e tento negá-la, ajude-me na preparação para o adeus...

Se estou doente e sou um peso em sua vida, não me abandone, um dia você terá a minha idade...

A única coisa que desejo neste meu final da jornada, é um pouco de respeito e de amor... Um pouco...
Do muito que te dei um dia !!!



Autor desconhecido.

domingo, 7 de agosto de 2011

Parábens vôzinho querido !

                                   Hoje amanheci com saudades... não aquela saudade doída ou angustiante, mas sim daquelas a gente quer segurar com o pensamento as lembranças mais marcantes de algum momento que ficou lá atrás no passado, e que a memória se recusa esquecer. Hoje meu avô materno faz 43 anos que nos deixou pois sua missão já havia se cumprido aqui entre nós .
Hoje quero lembrar um pouco o que fez pela nossa família . Eu tinha 14 anos e lembro com muito carinho do meu velho Oscar , um homem sofrido , magrinho , austero porém de uma dignidade tamanha que me deixa orgulhosa de fazer parte de sua descendência.
Foi ele quem me ensinou a dar os primeiros passos segurando cabo da vassoura.

                                                
Fui ninada várias vezes no seu colo onde ouvi muito o "boi da cara preta". Era elegante, esguio de passos rápido, andava sempre com uma bengala apoiada no ombro sentido horizontal, com ambas as mãos apoiadas nas extremidades. ( imitava o povo de Saygon carregando peso )sua utilidade era só pra afastar os cães de rua quando se sentia ameaçado. Era calmo, risonho e decidido.
Sabia respeitar e ser respeitado , com um simples olhar já sabia quando estava nos repreendendo em alguma coisa.
Meu velho Oscar ficou viúvo muito cedo, minha avó morreu em consequência de parto do último filho 15 dias após . Nesta época meu avô pertencia ao corpo guarda civil e era conhecido como 35, muito respeitado e amado pela corporação em Salvador .
Foi uma dor muito grande, pois tinha outros filhos que precisavam de cuidados, e minha mãe com apenas 12 anos assumiu a guarda dos irmãos menores. Logo meu velho adoeceu e ficou longo periódo internado, e ao receber alta foi aconselhado morar em lugares de clima frio e com ar puro, pois a cidade grande não iria fazer bem . Foi quando decidiu morar em Mata de São João, cidadezinha de interior na época bastante atrasada, sem pavimentação, a energia tinha horário para ser desligada e o único meio de transporte era o trem.

Nesta cidade começaria uma nova vida , passou a trabalhar como escrivão de policia na delegacia, onde pela moral e dignidade adquiriu respeito até das autoridades locais .
Era um homem ativo, curioso e inquieto... buscava sempre aprender um pouco de cada coisa, e assim foi vivendo naquela cidade pacata. Quando aposentou-se passou a exercer a profissão de marceneiro, o que o ajudou muito no orçamento doméstico. Eu ficava sempre ao seu lado vendo desenhar no compensado os moldes que seriam cortados com a serra tico tico, e logo se transformariam em brinquedos ou utensílios domésticos. Gostava de ver o pincel em suas mãos firmes dando vida e colorido a cada personagem por ele criado . Meus brinquedos eram de madeira, todos feitos por ele...lembro do mané gostoso, carrocinhas com burrinhos, e até mesmo mobílias das minhas bonecas .
Quando meus tios começaram a trabalhar e ajudar nas despesas ele passou a se dedicar a leitura .
Recebia seu pagamento em Salvador e em cada viagem aproveitava passando no sebo do viaduto da Sé, e comprava sacolas de livros usados, e sempre vinha alguns pra mim também só de figurinhas, pois nem sabia ler. Aprendeu a encadernar e restaurar seus livros , a cada cinco edições da revista Selecções, ele transformava em um só volume e assim conseguiu formar uma biblioteca. Sempre que eu ia vê-lo estava deitado na espreguiçadeira , com um monte de livros ao lado, as vezes cochilando com algum no colo.
Lembro que uma das paredes da sala, tinha uma estante enorme feita por ele, abarrotada de livros. No quarto a mesma coisa, e ainda alguns embrulhados por não ter onde colocar, sem falar que na sua cama a parte do canto da parede ficavam muito livros empilhados.
Quando saía para comprar o pão sempre voltava com o bolso cheio de balas para distribuir com as crianças pela rua .

No dia 07/08/1968 meu velho nos deixou... sua missão já estava cumprida aqui na terra .
Estava indo para aula de física quando de longe avistei muita gente entrando e saindo da casa dele, não sei o que senti na hora, apenas atravessei os matos e passei por baixo de uma cerca de arame farpado que nem senti o ferimento no ombro e ao chegar em casa todos chorando sem conseguir falar, fui direto ao quarto dele e lá estava deitado morto... vítima de um enfarto. Senti o chão fugir dos meus pés, não chorei...precisava avisar a meus pais, e tinha que ter cuidado ao dar a notícia, pois meu pai sofria do coração.
Indo pra casa ficava imaginando... se não era um pesadelo o qual iria acordar e tudo ficaria bem. A proporção que andava ia me conscientizando daquela perda, era a primeira de um parente tão próximo !
Como dóia e eu não podia chorar ainda .
Eu já era acostumada a ir as sentinelas de outras pessoas , gostava de ouvir as piadas, das gulodices que saíam durante a madrugada e até mesmo ajudava as famílias a vestirem seu defuntos . Porém agora era diferente , era eu que estava sentindo uma dor que dilacerava minha alma e ainda precisava ser forte .

Cheguei em casa parecendo um robô, só consegui dizer pra minha mãe que fosse ver meu avô, pois ele estava passando mal, e quando ela saiu eu pude me trancar no quarto e chorar muito, mas muito mesmo.
Das outras viagens meu velho sempre voltava , agora eu sabia que não mais teria retorno, teria que aprender a dizer adeus !!!
Chegamos a 4ª geração e ainda vivemos seus  ensinamentos. Nossos pais nos ensinaram o valor da moral, honestidade, seriedade e outras coisas hoje considerada como conservadora ou retrógrada num mundo contemporâneo onde os valores estão invertidos.
Tenho certeza que quando houver o grande encontro e ele ver todos reunidos, vai ficar muito feliz em saber que tudo que ele ensinou e fez não foi em vão.
Sua árvore gerou muitos frutos e todos bons .
Parábens vôzinho querido !







sexta-feira, 5 de agosto de 2011

RESISTINDO AO TEMPO...

                                   
Minha casa fica numa 
avenida de casinhas pequenas , onde se vê de tudo que  possa imaginar... desde a briga entre crianças , cães de rua e até mesmo entre adultos . Mas o que chama atenção mesmo é uma senhora moradora há muitos anos pelos seu hábitos nada convencionais . Percebe-se que tem problemas mentais pelo próprio comportamento diário. Passa o dia inteiro varrendo a rua e quando tudo está limpo volta a sujar só para ter o prazer de continuar varrendo. Faça chuva ou sol ela vai estar sempre na rua com uma tarefa que poderia ser de todos os moradores. Vive de favores da vizinhança. Só de vez em quando aparece uma pessoa que se diz sobrinho e nem mora com ela . Sabemos que seu aluguel é pago por uma sobrinha que nem a visita .
O que me admiro é ver sua resistência em relação as doenças, nunca a vi doente. nem tampouco se queixar de dores, embora fosse natural pela idade avançada. Tentamos cadastra-la para que recebesse aposentadoria e não aceitou , diz que isto é para preguiçosos. E assim vai vivendo...sem renda , móveis, apenas um fogão e um sofá velho que nunca a vi sentada !
Quando está em crise briga com todo mundo ou então se fecha em seu próprio mundo e fica calada o tempo todo.
Se pergunto porque está triste a resposta é " Quem tem Jesus não fica triste " e que seu palácio está no céu.
Ela sempre vai a uma igreja próxima a nossa rua .
Há momentos em suas crises que fala coisas que nos faz parar e refletir .
Ela pode não ter recursos financeiros, ou uma família para dar e receber carinho, mas uma coisa tenho certeza : resistência e saúde isso ela tem e porque não a fé ?

"Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes.
                                                    1ª Corintios 1:27

Em Isaías 35:8 diz assim :
"E ali haverá um alto caminho , um caminho que se chamará O Caminho Santo; o imundo não passará por ele , mas será para o povo de Deus ; os caminhantes , até mesmo os loucos não errarão"
Tenho certeza que ela não errará o Caminho .

Obs: Alfinha faleceu em novembro de 2014 no asilo onde estava internada há mais ou menos um ano depois de ter sido denunciado maltratos da família.
Já está no palácio dela .