terça-feira, 14 de maio de 2013

Simplesmente Walter ...Meu pai !

Em nossa família há muitos membros com nomes iguais, uns propositalmente por homenagem á alguém, outros por coincidência do destino mesmo. Temos: Déboras,Solanges,Egidios,Edvaldos,Noêmias e Walteres. Bem mas há um que é especial, um Walter...Meu pai.

Meu pai era um palhaço, a vida pra ele era um circo. Adorava contar suas estórias ainda que cabeludas eu fingia acreditar. Contador de piadas nato, se ninguém achasse graça, ele fazia questão de rir assim mesmo, (ainda que fôsse de vergonha).
Tinha lá seus defeitos (quem não tem ?) mas era um homem com muitas qualidades.
Não gostava de tristeza, adorava música e por mais problemas que tivesse, eu só o via assobiando suas músicas preferidas : Luzes da Ribalta ou Relógio. Meu velho até no dia de sua morte me fez ter cólica de risos, mas só vou contar no final...

Segundo relatos dos mais antigos, meus avós paternos eram muito ricos. Meu avô era dono de uma alfaiataria na Rua Chile que levava seu sobrenome, isto numa época que os mais abastados ali faziam suas compras, era chic , era nobre. Os tapetes que meu avô comprava eram trazidos em navios. Minha vò excelente pianista, e tinha outros dons pelo qual as mulheres eram preparadas para o casamento. Sempre aproveitavam os fins de semana para promover os saraus entre amigos. Um de seus avôs possuía terras com areia monazítica que decidiu vender por qualquer preço depois de discutir com um dos empregados e ser ameaçado de morte.

Pois bem, meu pai nasceu em "berço de ouro e tomou mingau em mamadeira de prata", chegou a ter três amas sêcas (babás), era uma pra cada turno. Mas a vida foi muito dura pra meu pai, durou pouco toda esta regalia só até seus cinco anos . Meu avô era um homem viciado em jogos e perdeu tudo que tinha, casa, bens, tudo confiscado por causa da dividas de jogo. O único objeto que conseguiram salvar foi o piano, por que vizinhos retiraram da casa antes que oficiais de justiça chegassem e ficou pra minha tia que já estudava música. De dono de alfaiataria passou a ser um pobre miserável que até a roupa com a qual foi enterrado não se adivinhava qual era a cor. Minha vó tornou-se uma mulher amargurada e entregou-se ao vicio da bebida.
O velho Walter não chegou a ter o curso primário completo, teve que trabalhar muito
cedo e ainda criança. Tinha todos os motivos pra se considerar infeliz ou seguir caminhos errados . Mais ele superou todos os obstáculos e até o fim da vida .

Seu primeiro infarto foi numa festa de São joão, estava dançando com minha mãe e passou mal, foi um corre corre , muitos chás de casca de cebola branca, erva doce e tudo que o povo do interior acreditasse que curava fizeram naquele momento, até que o médico chegasse para socorrê-lo. Passado os momentos difíceis começou a cuidar de fazer vários exames e foi diagnosticado angina no peito. Foi proibido muitas coisa coisas como: comer gordura, fazer esforço físico, evitar fortes emoções e o médico avisou que só dava três meses de vida.

Ora...Abolir tantas coisas boas pra viver só três meses ? não,isto não era pra meu pai. Passou a fazer tudo ao contrário, viajou mais, fez cursos de fotografia, comprou sua máquinas elétricas para trabalhar com marcenaria, de cada profissão autonômo entendia um pouco, era versátil, se virava nos trinta, comia tudo que gostava, não abandonou a cerveja nem o cigarro, e passou a agir como se cada momento fosse o último. Colocou meus irmãos em grupo de escoteiros, não perdia um fogo do conselho, estava sempre em atividades. A unica coisa que não abria mão, era do seu vasodilatador que andava no bolso e qualquer fisgada no peito lá ia o comprimido embaixo da língua. E assim o tempo foi passando, três cardiologistas dele morreram primeiro inclusive o que afirmou que só dava três meses de vida a meu pai.

A cada final de ano meu pai brindava e dizia: Consegui emplacar mais uma ano !


Mas tudo um dia tem que acabar e vinte e seis anos depois do seu primeiro infarto meu velho foi hospitalizado. No dia 02/08/1992 pela manhã fui vê-lo na UTI do hospital. Consciente, embora com dores fortes tentava brincar dizendo que estava sendo tão bem tratado que nem queria sair de lá, e não saiu mesmo pois as 13:30 meu pai faleceu. Eu, minha mãe e meus irmãos decidimos que nós iriamos vesti-lo e colocar as flôres no caixão. Fomos até o necrotério do hospital onde estava seu corpo em companhia de outro cadáver envelopados, um susto quando vi no pacotão preto a identificação:"NOÊMIA" coincidência ? Era o mesmo nome de minha mãe...Abri o ziper e estava lá uma senhora fazendo companhia a meu pai, minha mãe não gostou nada , achou que era um mau prenuncio. Abrimos o pacote de meu pai, seu corpo já estava muito duro embora tivesse poucas horas de morto, estranhei pois já vestí alguns cadáveres e todos flexíveis, dava pra mexer com os membros sem dificuldades, mas meu pai deu trabalho, acho que a quantidade de medicamentos ingeridos contribuiu para este enrijecimento .Enquanto eu e minha mãe tentávamos vestir a calça, meus dois irmãos tentavam enfiar as mangas do paletó, foi então que de repente senti um tombo, foi um de meus irmãos que, soltou o braço endurecido de meu pai e quando bateu no braço do outro, ele saiu em pânico gritando pelo jardim do hospital. A principio eu não entendi nada pois estava desolada, mas quando minha mãe disse que um dos braços havia escapulido das mãos de meu irmão e, batendo no braço do outro que apavorado saiu correndo . Ele acreditou que o velho estivesse vivo ou fazendo assombração. Eu tive uma crise de riso que me deu cólica abdominal, queria parar e não conseguia e quando olhava meu irmão de longe com os olhos arregalados aí foi que sentei no chão, e rí ainda mais... No seu enterro não deu pra chorar, ele não gostava de tristeza, e até o final conseguiu provocar risos, era olhar o caixão e lembrar o acontecimento do dia anterior, aí já sabe não é ?...



"Memórias que despertam saudade são percebidas de forma especialmente nítida, afetiva e rica em detalhes. Revividas com frequência, em comparação com outras memórias, são mais vívidas, fazendo com que o episódio seja sentido como temporalmente muito próximo, o que o torna mais real

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