segunda-feira, 23 de março de 2015

Doces Lembranças...


Eu, Deronice e Alda
Elí era a mais velha da nossa turma e a mais experiente e isto nos fazia sentir mais seguros nas nossas incurções pelas matas de nossa cidade.
Não tinhamos muitas opções de lazer  na nossa infância. Não tinhamos aparelho de tv. Parque de diversões era só em época de festas, Matineé  e passeios na praça só aos domingos. Durante a semana era só sentar nas portas dos mais idosos e ficar ouvindo histórias contadas por D. Branca, D. Maria e João dos óculos. De vez em quando burlávamos a vigilância de nossas mães e iríamos desbravar as matas da nossa cidade. Tinha um lugar que eu sonhava em ver um dia, pois da casa do meu avô Oscar dava pra ver bem longe um morro bem alto com sua enorme cruz, era o ponto mais alto da cidade chamado Morro do Cruzeiro. Certo dia enquanto estavámos na fila do chafariz aguardando a nossa vez de encher as latas d'agua combinamos que iriamos até o morro. Depois de abastecer o tonel, falei pra minha mãe que iria brincar com as meninas e ela concordou pois já tinha terminado com minhas tarefas. Deronice, Suely, Alda , meus dois irmãos e Elí que liderava a turma, subimos a rua Costela da Vaca, e chegando próximo ao Cemitério nos embrenhamos mata a dentro. A principio eu toda empolgada acreditava que iria encontrar alguns frutos tipo ingás ou goiabas, qual nada... Quanto mais andava mais mato aparecia.

D. Branca e D. Maria
Eu não tinha medo de bicho, meu único medo era da minha imaginação. Nesta hora eu lembrava das histórias de assombração e das lendas contadas pelos mais velhos nas noites enluaradas. Meus irmãos assobiavam dizendo estar chamando a caipora, ou então diziam estar vendo uma mula sem cabeça. Passou na minha mente o caso da japonesinha Mioko Tizuki que com 8 anos fora estuprada e morta quando ia para o colégio justamente quando passava por um atalho da estrada do JK, fato que abalou toda cidade na época. Eu já começava a ficar apavorada, quando chegamos a um descampado, e consegui avistar de perto aquele morro que eu avistava tão longe da janela de meu avô. Começamos a subir com mais entusiasmo pois o pior havia passado. Foi maravilhoso quando cheguei ao topo e vi minha cidade lá embaixo, o horizonte encontrando com o verde das matas, a cidade em sí era pequena com poucas casas,também pude ver ao longe a chaminé queimando gás de petróleo da plataforma do Vinte Mil. Esta combustão me deixava apavorada durante a noite porquê o céu nesta direção ficava com tons avermelhado, e eu achava que ia explodir a cidade e morrer todo mundo queimado. Agora estava ali bem a minha frente o mistério dos clarões noturnos das noites sem luar. Não tinha máquina pra registrar aquela visão, mas valeu a pena, guardo na minha memória. Voltamos felizes afinal foi mais um passeio ao desconhecido que fizemos. Eu sabia mais ou menos o que me esperava quando chegasse em casa pois já era passada a hora, e nada me faria arrepender daquela aventura. Levei uma bela surra juntamente com meus irmãos. Eli e Sueli já não estão mais conosco, faleceram bem novinhas. No morro atualmente há uma torre de telefonia e não é mais visível da janela do meu avô devido as muitas construções. No meu pensamento continua igual e não quero esquecer...

 ” A sombra da lembrança é igual a sombra da gente pelos caminhos da vida ela está sempre presente.”
(AD)