Hoje quero lembrar um pouco o que fez pela nossa família . Eu tinha 14 anos e lembro com muito carinho do meu velho Oscar , um homem sofrido , magrinho , austero porém de uma dignidade tamanha que me deixa orgulhosa de fazer parte de sua descendência.
Foi ele quem me ensinou a dar os primeiros passos segurando cabo da vassoura.
Fui ninada várias vezes no seu colo onde ouvi muito o "boi da cara preta". Era elegante, esguio de passos rápido, andava sempre com uma bengala apoiada no ombro sentido horizontal, com ambas as mãos apoiadas nas extremidades. ( imitava o povo de Saygon carregando peso )sua utilidade era só pra afastar os cães de rua quando se sentia ameaçado. Era calmo, risonho e decidido.
Sabia respeitar e ser respeitado , com um simples olhar já sabia quando estava nos repreendendo em alguma coisa.
Meu velho Oscar ficou viúvo muito cedo, minha avó morreu em consequência de parto do último filho 15 dias após . Nesta época meu avô pertencia ao corpo guarda civil e era conhecido como 35, muito respeitado e amado pela corporação em Salvador .
Foi uma dor muito grande, pois tinha outros filhos que precisavam de cuidados, e minha mãe com apenas 12 anos assumiu a guarda dos irmãos menores. Logo meu velho adoeceu e ficou longo periódo internado, e ao receber alta foi aconselhado morar em lugares de clima frio e com ar puro, pois a cidade grande não iria fazer bem . Foi quando decidiu morar em Mata de São João, cidadezinha de interior na época bastante atrasada, sem pavimentação, a energia tinha horário para ser desligada e o único meio de transporte era o trem.
Nesta cidade começaria uma nova vida , passou a trabalhar como escrivão de policia na delegacia, onde pela moral e dignidade adquiriu respeito até das autoridades locais .
Era um homem ativo, curioso e inquieto... buscava sempre aprender um pouco de cada coisa, e assim foi vivendo naquela cidade pacata. Quando aposentou-se passou a exercer a profissão de marceneiro, o que o ajudou muito no orçamento doméstico. Eu ficava sempre ao seu lado vendo desenhar no compensado os moldes que seriam cortados com a serra tico tico, e logo se transformariam em brinquedos ou utensílios domésticos. Gostava de ver o pincel em suas mãos firmes dando vida e colorido a cada personagem por ele criado . Meus brinquedos eram de madeira, todos feitos por ele...lembro do mané gostoso, carrocinhas com burrinhos, e até mesmo mobílias das minhas bonecas .
Quando meus tios começaram a trabalhar e ajudar nas despesas ele passou a se dedicar a leitura .
Recebia seu pagamento em Salvador e em cada viagem aproveitava passando no sebo do viaduto da Sé, e comprava sacolas de livros usados, e sempre vinha alguns pra mim também só de figurinhas, pois nem sabia ler. Aprendeu a encadernar e restaurar seus livros , a cada cinco edições da revista Selecções, ele transformava em um só volume e assim conseguiu formar uma biblioteca. Sempre que eu ia vê-lo estava deitado na espreguiçadeira , com um monte de livros ao lado, as vezes cochilando com algum no colo.
Lembro que uma das paredes da sala, tinha uma estante enorme feita por ele, abarrotada de livros. No quarto a mesma coisa, e ainda alguns embrulhados por não ter onde colocar, sem falar que na sua cama a parte do canto da parede ficavam muito livros empilhados.
Quando saía para comprar o pão sempre voltava com o bolso cheio de balas para distribuir com as crianças pela rua .
No dia 07/08/1968 meu velho nos deixou... sua missão já estava cumprida aqui na terra .
Estava indo para aula de física quando de longe avistei muita gente entrando e saindo da casa dele, não sei o que senti na hora, apenas atravessei os matos e passei por baixo de uma cerca de arame farpado que nem senti o ferimento no ombro e ao chegar em casa todos chorando sem conseguir falar, fui direto ao quarto dele e lá estava deitado morto... vítima de um enfarto. Senti o chão fugir dos meus pés, não chorei...precisava avisar a meus pais, e tinha que ter cuidado ao dar a notícia, pois meu pai sofria do coração.
Indo pra casa ficava imaginando... se não era um pesadelo o qual iria acordar e tudo ficaria bem. A proporção que andava ia me conscientizando daquela perda, era a primeira de um parente tão próximo !
Como dóia e eu não podia chorar ainda .
Eu já era acostumada a ir as sentinelas de outras pessoas , gostava de ouvir as piadas, das gulodices que saíam durante a madrugada e até mesmo ajudava as famílias a vestirem seu defuntos . Porém agora era diferente , era eu que estava sentindo uma dor que dilacerava minha alma e ainda precisava ser forte .
Cheguei em casa parecendo um robô, só consegui dizer pra minha mãe que fosse ver meu avô, pois ele estava passando mal, e quando ela saiu eu pude me trancar no quarto e chorar muito, mas muito mesmo.
Das outras viagens meu velho sempre voltava , agora eu sabia que não mais teria retorno, teria que aprender a dizer adeus !!!
Chegamos a 4ª geração e ainda vivemos seus ensinamentos. Nossos pais nos ensinaram o valor da moral, honestidade, seriedade e outras coisas hoje considerada como conservadora ou retrógrada num mundo contemporâneo onde os valores estão invertidos.
Tenho certeza que quando houver o grande encontro e ele ver todos reunidos, vai ficar muito feliz em saber que tudo que ele ensinou e fez não foi em vão.
Sua árvore gerou muitos frutos e todos bons .
Parábens vôzinho querido !






Um belo relato.... Momento histórico de vidas vividas. Aproveito para falar da grande lição de dignidade adquirida com nossos entes queridos. Quem dera ,hoje, fosse impetrado aos jovens os mesmos seguimentos que nossos pais não deixou passar despercebido...A sociedade estaria menos doente e mais fortalecida! Beijos em seu coração!
ResponderExcluirQuerida prima Solange, fico muito feliz ao ler seus relatos. Esse então me emocionou bastante, pois trata da história da minha família em especial do meu avô que não tive o privilégio de conhecer, esse relato li em voz alta para que Verônica, Adriele e Gabi também conhecessem um pouco da história dos nossos antepassados.
ResponderExcluirSol, sou bastante sincera quando agradeço a você esta rica oportunidade de conhecer a história da minha família, pois me leva a compreensão das mudanças que ocorreram ao longo tempo e me proporciona viajar no tempo em que ainda não fazia parte dele. Passa um filme na minha cabeça, fico imaginando tudo com detalhes cada linha digitada por você é possível interpretar as histórias e cada vez mais me interesso em conhecer as minhas origens e poder passar para minha filha e sobrinhos. Lembre- se já falei e torno a repetir esse trabalho não tem preço, só Deus para lhe retribuir.
Te amo muito e que Deus te cubra com toda sorte de bênçãos.
Obrigada prima pelo seu depoimento, me deixa emocionada. É fácil falar de álguem que conheci, conviví e aprendi a amar.O que sinto pelo nosso avô ultrapassa as décadas que em se foi.
ResponderExcluirFica com Deus !