Foi na época do presidente Sarney quando criou o plano cruzado, que passamos por maiores dificuldades econômicas e financeiras. Com o congelamento dos prêços e dos salários pelo prazo de um ano, começaram a faltar os produtos nas prateleiras dos mercados, comprávamos alimentos com ágio , mercadórias faltavam nas lojas , salários sendo corregidos pelo gatilho,inflação acima de 35% ao mes, e aqueles que sobreviviam de comissões sobre as vendas foram os que mais sofreram.O desespero já dominava cada colega do meu trabalho, o fantasma do desemprêgo ficava rondando nossas vidas.
Eu trabalhava numa loja de móveis e eletrodomésticos e nossa equipe era muito unida, as vezes comprávamos quentinhas e dividiamos uns com os outros para não passar fome.
Certo dia, antes de abrir a loja eu estava arrumando a minha secção de eletroportáteis, quando minha colega Nice chegou toda trêmula e pálida, gaguejando me mostrou uma carteira de couro masculina grande com alças, que encontrara embaixo de um colchão da exposição de dormitórios em que ela cuidava, disfarçadamente abrí e ví muitas cédulas, pedí que fôssemos a um local que ninguém nos visse pra não chamar atenção, pois não confiávamos no gerente nem no sub. Subimos até o depósito e começamos a esmiúçar o conteúdo...Aí quem passou a tremer foi eu...Vários cheques nominais á uma só pessoa e dinheiro em espécie que somado daria hoje em torno de mais de oito mil reais e todos os documentos pessoais. Um turbilhão de pensamentos passou pela nossa mente; imaginamos que algum ladrão houvesse escondido ali para despistar a polícia e acreditávamos estar sendo observadas por todos os lados. Estavamos ficando apavoradas esta é a palavra certa.
Ficamos na dúvida o que faríamos...Se deveriamos entregar ao gerente, ou se ela ficaria, pois passava por situação difícil criando três filhos pequenos sózinha e sem o marido. Continuamos a mexer na carteira e apareceram folhetos biblicos, mas nada que constasse nºde telefone, só uma carteirinha da Igreja Batista Sião com nome do pastor que coincidia com os demais documentos . Foi então que ligamos para igreja procurando pela pessoa, mas não entramos em detalhes e ficamos sabendo que estava em viagem, porque a filha havia sido operada numa cidade do interior da Bahia. Deixamos recado para que nos procurasse quando o mesmo retornasse, pois era caso de interesse próprio . Passado uns 15 dias ele ligou procurando Nice, e foi então que ficou sabendo que seu dinheiro havia sido encontrado por ela na loja . Ao chegar sentamos em uma mesa e ele nos detalhou como esqueceu aquela carteira embaixo do colchão. Ele tinha acabado de sacar o dinheiro para pagar a cirurgia da filha, em um banco próximo a loja, e aproveitou para passar em várias lojas pesquisando preços de colchões, pois sua filha iria fazer uma cirurgia e precisaria de um novo, e para sentir a densidade da espuma teria que usar as duas mãos, e deixou a carteira no lastro da cama, já que não dava para coloca-la no bolso e na pressa arreou o colchão e saiu. E por ter passado em vários lugares não tinha como lembrar onde haveria deixado. Porém uma irmã da igreja já tinha sonhado que o dinheiro seria devolvido, e por isto ele não ficou ansioso e cuidou de tomar empréstimos entre alguns irmãos para cubrir a cirúrgia da filha. Só entregamos a carteira quando ele para se identificar apresentou a assinatura de um jornal da igreja endereçado á ele, cujo nome conferia com os documentos encontrado. A gratidão deste homem foi tamanha que doou a minha colega uma gorgeta alta, e nós choramos juntas pois eu sabia o que ela passava junto com os filhos, tinha época que juntos faziamos vaquinha pra dar cesta básica a ela já que nós eramos comissionadas e sem vendas só recebiamos o teto salarial que mal dava pra sobreviver.Minha colega poderia se aproveitar pelo fato de ter achado e ficar com todo aquele dinheiro mas e sua consciência como uma pessoa católica temente á Deus como ficaria ? Foi bem melhor assim, os cheques já haviam sido sustados , o pastor deu aquilo que seu coração mandou e ela recebeu tudo que precisava, meses depois se reconciliou com o esposo , o filho mais velho conseguiu um estágio numa empresa e assim sua vida foi sendo abençoada cada vez mais.
Eu faço questão de falar sobre este caso porque estamos vivendo uma época em que ser honesto parece um absurdo, algo extraordinário quando deveria ser normal. O fato de dois moradores de rua encontrarem vinte mil reais e devolverem aos donos do restaurante que haviam sido assaltados virou febre na mídia, todos os canais de comunicação exploram como algo fantástico. A que ponto chegamos , estamos tão acostumados com a desonestidade e a corrupção que quando encontramos pessoas simples e honestas servem até de furo para as notícias.
"Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores"
1ªTimóteo 6:10

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